Figura 01 - TANC e MANC.
Figura 01 - TANC e MANC.

Territorialidades Alimentares Não Convencionais (TANC) e Multi-Territórios Alimentares Não Convencionais (MANC)



1. Alimentação, território e as contradições do “não convencional”


A alimentação é uma prática profundamente territorial. Ela envolve saberes, técnicas, espécies vegetais, modos de preparo, relações sociais, memórias e identidades construídas historicamente nos lugares. No entanto, os sistemas agroalimentares contemporâneos, fortemente influenciados pela agroindústria e pela padronização do consumo, tendem a invisibilizar práticas alimentares locais, diversificadas e tradicionais.

Nesse contexto, o termo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) ganhou ampla difusão no Brasil, cumprindo um papel fundamental ao chamar atenção para a biodiversidade alimentar e para espécies pouco presentes no mercado e no consumo cotidiano. Contudo, com o amadurecimento do debate, tornaram-se evidentes algumas contradições conceituais importantes.

A primeira delas diz respeito ao regionalismo. Uma planta pode ser considerada PANC em um território e totalmente convencional em outro. O pequi, por exemplo, é um alimento identitário e cotidiano em Goiás e no Cerrado, mas pode ser visto como “não convencional” no Sul e Sudeste do Brasil. Isso revela que o “não convencional” não está na planta em si, mas na relação territorial estabelecida com ela.

A segunda contradição envolve a parte da planta. Espécies amplamente convencionais podem ter partes consideradas PANC. A batata-doce, por exemplo, é um alimento comum, mas suas folhas, apesar de nutritivas e com uso tradicional em outros países, ainda são pouco utilizadas na alimentação brasileira. Nesse caso, a planta não é PANC, mas o uso alimentar de determinada parte é.

A terceira contradição refere-se à forma de fazer. O “não convencional” pode estar no modo de preparo, e não no ingrediente. O mamão verde, quando ralado, refogado ou batido para preparações salgadas, rompe com o repertório alimentar dominante, ainda que o fruto seja amplamente conhecido.

Em todos esses casos, o termo PANC acaba, muitas vezes, “jogando a responsabilidade” para a planta, quando, na realidade, o que está em jogo são territórios, práticas, saberes e usos culturais.


2. NUS / PANS: uma tentativa de superação — e seus limites


No cenário internacional, surge o termo NUS – Neglected and Underutilized Species, traduzido no Brasil como PANS – Plantas Alimentícias Negligenciadas ou Subutilizadas. Esse conceito desloca o foco da “não convencionalidade” para a negligência histórica por parte do mercado, das políticas públicas e da pesquisa científica.

De fato, PANS ajuda a evidenciar:

  • Espécies excluídas da agricultura industrial;
  • Plantas ausentes de programas institucionais;
  • Alimentos invisibilizados pela ciência e pelo mercado.

No entanto, o termo também apresenta limites semelhantes aos de PANC. A ideia de “negligência” depende de quem observa: uma planta pode ser negligenciada pelo mercado, mas amplamente utilizada por comunidades locais. Além disso, PANS tende a focar na espécie, tendo dificuldade em lidar com:

  • Partes específicas da planta;
  • Modos de preparo;
  • Práticas alimentares territoriais.

As folhas da batata-doce, novamente, ilustram esse limite: não se trata de uma espécie negligenciada, mas de um uso alimentar subutilizado.

Assim, tanto PANC quanto PANS cumprem papéis importantes, mas não conseguem, sozinhos, explicar plenamente as dinâmicas territoriais da alimentação.


3. Por que falar em Territorialidades Alimentares Não Convencionais (TANC)?


As Territorialidades Alimentares Não Convencionais (TANC) deslocam o olhar da planta para a prática alimentar. O foco deixa de ser “o que a planta é” e passa a ser como, onde, por quem e com que sentido o alimento é produzido, preparado e consumido.

Uma TANC se constitui quando::

  • O uso alimentar rompe com os circuitos hegemônicos;
  • O saber é local, empírico ou intergeracional;
  • A prática está vinculada a quintais, hortas, comunidades, escolas ou cozinhas experimentais;
  • O alimento assume valor simbólico, identitário e político.

Exemplos de TANC:

  • Folhas de batata-doce incorporadas em refogados ou bolinhos;
  • Mamão verde em preparações salgadas;
  • Flores de abóbora utilizadas na culinária;
  • Pequi em sobremesas, fermentações ou oficinas pedagógicas;
  • Jambu preparado fora de seu repertório tradicional amazônico.

Aqui, o “não convencional” está na territorialidade da prática, não na espécie.:


4. O que são Multi-Territórios Alimentares Não Convencionais (MANC)?


Os Multi-Territórios Alimentares Não Convencionais (MANC) ampliam ainda mais a análise ao reconhecer que alimentos, saberes e práticas circulam por múltiplos territórios, assumindo sentidos distintos conforme a escala, o contexto cultural e o sistema alimentar dominante.

Uma planta pode ser::

  • Convencional em um território;
  • Não convencional em outro;
  • Não hegemônica no sistema agroalimentar nacional;
  • Simbólica, identitária ou exótica conforme o contexto.

Exemplos de MANC:

  • Pequi: convencional em Goiás, não convencional no Sul, periférico no mercado nacional;
  • Jambu: cotidiano no Norte, TANC e MANC em outras regiões;
  • Ora-pro-nóbis: tradicional em Minas Gerais, “descoberta” recente em outros estados;
  • Taioba: comum em comunidades rurais, invisível em centros urbanos.


5. Como TANC e MANC resolvem as contradições anteriores?


Com esses conceitos, as aparentes contradições deixam de ser problemas e passam a ser dados analíticos.

Algumas combinações possíveis:

  • MANC, mas não TANC: Pequi tradicional em Goiás: base alimentar local, uso estabilizado.
  • MANC e TANC:Jambu no Sudeste; pequi em oficinas gastronômicas; ora-pro-nóbis em novos contextos.
  • TANC, mas não e MANC:Mamão verde batido; folhas de batata-doce — práticas não convencionais com plantas amplamente conhecidas.

Essas combinações mostram que:.

  • Nem toda planta MANC é necessariamente TANC;
  • Nem toda TANC depende de uma planta MANC;
  • O território é o elemento organizador central.


6. O portal PANC do Cerrado como TANC e MANC digital


O portal PANC do Cerrado pode ser compreendido como um território alimentar digital, onde práticas, saberes, espécies e preparações são registrados, sistematizados e compartilhados.

Nesse sentido, o portal:

  • Ativa TANC digitais, ao ensinar, experimentar e ressignificar práticas alimentares;
  • Articula um MANC em rede, conectando quintais, escolas, comunidades, instituições e biomas;
  • Não substitui os territórios físicos, mas os amplia;
  • Funciona como espaço de memória, educação e circulação de saberes.

A presença digital das PANC cria novas formas de territorialização e reterritorialização alimentar, mostrando que o território não é apenas material, mas também simbólico, relacional e informacional.


7. Conceitos em construçã


Os conceitos de TANC e MANC estão em desenvolvimento no âmbito de pesquisa acadêmica em Geografia, dialogando com::

  • Geografia Cultural;
  • Geografia Agrária;
  • Soberania e segurança alimentar;
  • Agroecologia;
  • Educação ambiental.

Neste portal, eles são apresentados de forma aplicada, exemplificada e acessível, a partir das espécies e práticas aqui documentadas.


8. Por que esses conceitos importam?


Pensar a alimentação a partir de TANC e MANC permite:

  • Superar classificações rígidas;
  • Valorizar saberes alimentares territoriais;
  • Compreender a alimentação como prática dinâmica;
  • Fortalecer a soberania alimentar;
  • Reconhecer que os alimentos não estão “fora do padrão” por acaso, mas por processos históricos e territoriais;
  • Mais do que perguntar o que é PANC;
  • Passamos a perguntar em que território, de que forma e por quais razões esse alimento se torna não convencional.

Autor

PANC DO CERRADO

SANCHES DE FARIA, Jefferson Carlos.

PANC do Cerrado:

TANC é o território vivido da alimentação não convencional.

SANCHES DE FARIA, Jefferson Carlos.

PANC do Cerrado:

MANC é a rede de territórios onde essa alimentação circula, se transforma e resiste.